quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ensaios Sobre a Cegueira (Blindness, 2008)


Fernando Meirelles ganhou grande notoriedade internacional com o filme Cidade de Deus, seu estilo e habilidade ao adaptar uma obra literária complicada o deram o gabarito para adaptar o comentado livro do escritor português José Saramago, obra o qual o exigente escritor não queria vender para qualquer um (algo que falta e muito aos criadores de obras originais ao “darem” de mão beijada suas crias aos produtores canastrões de Hollywood). É também o responsável, durante essa sua fase internacional, pelo ótimo Jardineiro Fiel que, assim como esse seu novo filme e os anteriores, adotam um clima de crítica social.

A trama gira em torno de uma epidemia que de forma inexplicável é transmitida às pessoas, causando uma “cegueira branca”. Conforme o depoimento de um dos personagens, é como se estivesse “mergulhando em um mar de leite de olhos abertos”. Logo, as pessoas infectadas são colocadas em quarentenas e, como na maioria das vezes, o Estado começa a falhar, pondo assim em cheque a necessidade de sobrevivência das pessoas que ali estão exiladas.

Ao longo do filme somos apresentados a vários personagens de várias etnias, sendo que nenhum deles possui um nome (o nome importa para designar quem somos?), a partir dái identificados apenas por números ou sua profissão. É de forma propositada que percebemos que estamos diante uma sociedade globalizada, com várias pessoas de diferentes etnias: brancos, negros, orientais, árabes, latinos, etc. Com isso, reforçamos mais ainda a idéia que pode ser qualquer cidade no mundo, ou até mesmo país, apesar de todos falarem inglês. Se eu não estou enganado, foi uma das exigências de Saramago.

A mensagem do filme é única e direta: ao longo dos anos somos vítimas do nosso dia a dia, ficamos ligados nos nossos bens materiais e esquecemos a nossa natureza essencial, nosso humanismo está no relacionamento com o próximo sem discriminação de cor ou credo e o sentimento que nos une. Tornamo-nos cegos ao mundo ao nosso redor, pois nos esquecemos de dar o real valor às coisas que realmente importam, onde o essencial não é visto com os olhos. Talvez o nosso mundo só funcionasse realmente se algo desse tipo acontecesse para que pré-conceitos de qualquer natureza viessem abaixo. Se pensarmos direito, aquelas pessoas que se relacionaram (o grupo principal) só virou uma família por conta da necessidade de apoio, pois se não fosse a necessidade, em um mundo como o nosso, nunca teriam sequer um contato visual.

Dois aspectos se destacam nessa produção: primeiro, a fotografia maravilhosa, adotando sempre um estilo saturado, para que possamos mais ou menos entender como os protagonistas vêem e tomadas inusitadas, seja ela de forma abstrata (vide a cena mais chocante do filme envolvendo as mulheres) ou através de reflexos ou através de vidros. Segundo, o elenco forte encabeçado pela sempre competente Julianne Moore, sendo a única que pode enxergar - ela se deixou ser presa para ficar ao lado de seu marido (Mark Ruffalo).
A única razão deste filme não atingir o ápice seja a narração em off, protagonizada por Danny Glover, simplesmente aparecendo no meio do filme, sendo totalmente descartável. Para tornar a coisa mais poética, seria bom se ela não existisse e que pudéssemos tirar nossas próprias conclusões do que tá rolando. É como assistir a um jogo de futebol com o Galvão Bueno narrando, sempre falando mais do que o necessário.

O estilo empregado em Ensaio Sobre a Cegueira não é para aqueles que estão acostumados com as obras corriqueiras de Hollywood, talvez seja por isso que não tenha feito tanto sucesso lá fora. Entretanto, para quem está habituado com cinemas como o nosso (cinema-favela) e tem a mente aberta para formas diferentes de contar uma história, sem medo de chocar, se agrade desta obra. Fica a impressão de que se tivesse caído em mãos hollywoodianas talvez não tivesse o mesmo impacto do que o produto final deste grande salto para os nossos realizadores brasileiros.


Nota: 8,5

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